sexta-feira, 25 de julho de 2014

Asas

Trago o coração debaixo da asa,
Suave vento que me eleva.
Incógnito, estranho, inexplicável
Mas constante, intenso, inexorável.

Trazem as minhas asas o vento que as leva
Traz o vento o céu que navego
Traz o céu o sentimento a que me entrego

E fá-lo sem razão.
Fá-lo por capricho.
Fá-lo por afecto.
Fá-lo pelo que quiserem que o faça,
Independente do voo.

Alto, bem alto, imerso em nuvens
Onde nada tem de fazer sentido
Gosto de ti
Só porque sim.


                                                            



segunda-feira, 14 de abril de 2014

"Bloqueios"

Bloqueio: nome masculino. Impedimento de passagem; cerco de território inimigo; figurativo incapacidade de agir, de se manifestar.

Um hiato que deriva de um impedimento. Na mouche. De facto, quando a mente se encontra em cerco por tantas outras coisas e afazeres, é normal que se sinta uma certa incapacidade de agir, de se manifestar. E outros mais irrequietos decidem manifestar-se sobre a incapacidade de se manifestarem. Como aquele que fez o sketch sobre não ter o texto. Ou este que escreve sobre não saber o que escrever. Tão tipicamente humano, este tipo de devaneios, esta inquietação mental que nos mantém despertos e prontos a criticar qualquer coisa, seja o tempo lá fora, o jogo de ontem à noite, ou o bloqueio mental que nos perturba há já demasiado tempo. Um bloqueio tão forte que até enquanto escrevo estas linhas me debato com a palavra que se segue. E quando penso que já não tenho nada a dizer, aparece uma frase qualquer que quebra essa planície vasta e preenchida de vazio, mergulhando no fundo poço logo que aparece, nem deixando uma onda na superfície. Imagino o desespero que é esta situação para quem vive de se exprimir, de repente parece que se lhe atam as mãos, coze-se a boca, selam-se os olhos e apaga-se a mente...

Tão incrivelmente genérico que é este texto, e tão estupidamente típica a sensação que o criou. Que mais se podia pedir da prole do nada? Vendo as coisas de outra maneira, ter o espírito crítico para conseguir escrever sobre não conseguir escrever, aparte da ironia da situação, é bom sinal. Uma luz ao fundo do túnel. O aviso que eventualmente o cerco será levantado, que a planície voltará a ter vida, que o poço voltará a encher-se, que do nada apenas sobre o silêncio suficiente, como aquele que é essencial à música para poder existir e ser mais que ruído. Curioso, o remédio para o bloqueio da escrita talvez seja mesmo escrever...

E vou-me com esta ironia.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Sopro

Leve, o toque do veludo.
Conforto sedoso da sua carícia etérea,
Serpenteante entre pérola e estofo
Rubiáceo, calor,
De novo recebido com fervor.

Eterna, congelada essência,
Gelo, cristal escorrendo
Água, sobre os campos negros.

Com ternura, recebe o sopro,
Aconchega e acarinha,
Com veludo, conforta,
Envolve e entrega.

Leve, esse toque,
Que com um beijo,
Tudo termina.